sábado, 20 de janeiro de 2018

(R)espirais


Ela chegou vinda do ontem, lá das terras baixas. Veio, talvez toda inteira, dizendo estar em missão.

Ele não compreendeu de todo, mas a recebeu todo entendido. Na primeira saída, quando pensou que a levava, errou os caminhos todos. Saiu parando, à espera de estranhos, que pudessem indicar uma rota qualquer. Pela direita de quem vinha, puxou a direção à esquerda, sabedor de que na espiral das geografias, não se perderia, voltaria ao mesmo ponto, o ponto zero.

Ela disse ter poderes.

Ele acreditou.

Ela sacou de sua bolsa unguentos dos mais variados. Secos, suaves, com cor de pele bronzeada, ardidos, apressados. Desse seu matulão, não se viam pássaros mortos ou coelhos de cachola. De lá, espiando de cá, percebia pequenos fogos de purpurina.

Ele não sabia que magia era aquela. Era desses que só levava o que lhe cabia nos bolsos das calças, quando as calças resolviam vestir seu corpo, então todo rasgado e arroxeado.

Ela passou o cravo no arranhão das mãos, a pomada lhe foi aplicada nas quedas das pernas, o perfume, do qual não sabia distinguir uma nota qualquer, foi-lhe massageado nos seus cabelos-barba.

Ele pensou que a missão estava finda. Que o círculo de suas feridas havia sido cuidado. Ledo. Daí, seu engano. Quiçá seu espanto, pois d´ela, que lhe dizia ser bruxa, um oleado foi aplicado.

Ela aplicou soprando em sua boca.

Ele sentiu o azeitamento. Sentiu que aquele tratamento não deixaria pegajosa sua pele, pois fora aplicada no dentro.

Ela assim sorriu. Disse ter chegado a hora e se foi. Missões outras?! Que seja, toda bem-vinda. Sempre à esquerda, ele pensou, como um anel, desenhado na pele e na madeira, sinalizando um eterno espiral.


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Uma letra


Ele andava faminto pelas querelas próprias da vida que não escolhera. Seu nome era Chico Feixo. Chico tinha no seu corpo a paisagem de uma seca. Para quem o via, não, todo fornido, delineado, fofo, diziam uns e outros.

Mas Chico só sentia as pontadas agudas nas suas costelas, como se ali tivesse um infante de oito meses. Quando deitava, suas pernas e outros membros, sentindo tão descarnados, doíam quando o choque entre seus lados, tentava repousar nas camas mais macias. E assim, se Chico não fosse tão imerso numa quietude tão própria, poderíamos ouvir, quem sabe, impropérios, daqueles ressentidos, desgarrados, dignos de galinhas e guinés.

Um dia desses, nem tem tanto tempo, Chico que se achava tão sem dono de vida, remoendo desastres que se imputava, ouviu que era preciso ir, ainda sem saber de onde era.

Chico arrumou o que ainda lhe parecia indispensável, colocando numa sacola qualquer, um par de cuecas, calças, sapatos, camisetas e foi ter. Saiu sem rodas, caminhando, sabendo que a cada instante, a única urgência era que um pé seguisse o outro. Uma passada por vez. Foi desse modelo que se viu viajante.

Alguns dias, dormia embaixo de uma mangueira, bananeira, jambeiro, dormia céu aberto,vendo suas manhãs raiarem, ainda como sua passada. Uma raiada por vez.

Chico conheceu Maria, tomou café com José, com Fernando experimentou um trago. Mariana lhe fez amor. Cecília rezou-lhe com um ramo. O menino João lhe fez um retrato. Conheceu muitos. Nessa medida, se desconheceu. Percebeu que os caminhos, ruelas, terraços, palhoças eram muitas e estavam ali.

A passada de Chico começou a ter um ritmo próprio, ora galopante, ora arrastado, pois seus pés já tinham adquirido a sabedoria que um não precisa ser lembrado de ir junto ao seu outro.

Dizem que Chico agora danou-se pro sertão, pra mata, para as chapadas, canaviais, ribanceiras e até para as selvas de pedras. De tanto andar, seu corpo ficou esquio, amadeirado, perdendo a fofura que lhe era atribuída pelos alheios. Que, por fim, virou um feixe das varas que recolheu pelas suas andanças.

Mesmo os ventos mais fogosos e insistentes que, ocasionalmente, tentavam vergar o Chico Feixe, ele balançava, sem abrir mão de com isso, criar novas danças, que também passaram a embalar suas dormidas. Foi na expansão, construindo sua mansidão.

Afinal, uma letra pode ser tudo, às vezes, nada.


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

das perdas e ganhos


Ela perdeu a si, perdeu seu amor, seus bichanos, seus óculos. Sobretudo, a matéria inorgânica que lhe dava a impressão de tudo ver. Ou ouvir, quando a reminiscência das melhores lembranças e suas canções singelas e ardentes ainda embalavam seus cabelos e deixava entrever seus dentes, em meios sorrisos.

Quando perdeu a si, se viu paralisada. Sua cama era seu universo. Do seu quarto, uma grande janela engradada deixava aos passantes alheios imagens de encarceramentos. Mas era daquele retrato fissurado, repartido por linhas de ferro, que ainda a permitia paisagens para além de sua galáxia íntima, prenhe de super novas e grandes buracos negros.

Largou mão dos banhos diários, não que fosse um grande sacrifício, deixou de ouvir os barulhos das ondas do mar, de degustar o amarelo e suas espumas refrescantes, andando duro, encastelada, com seus cabelos raspados.

Nos dias que se via obrigada a procurar psiquiatras, xamãs, rezas, terapias, beberagens, ia com um corpo trêmulo, ia não indo, indo não ia.

E foram horas, dias, meses... Com uma tremedeira de cão, quando os outros comemoram suas festividades, suando o céu com seus rojões.

O vermelho rebu já não pintava seus dias, suas mãos já não tinham anéis e a caveira que adornava seu pescoço torou.

Era um bicho tóxico, contaminado, empoeirado, tornado velho, tornado manada, cuja pele e carne se putrefava.

Um dia, uma leva de urubus a viram, passaram pelas suas grades e abocanharam seus restos. Depois que se refestelaram, voaram saciados, ainda famintos.


Assim, ela voou com eles, deixando-se ir. E sua cama ficou vazia, só com as marcas-fluidos de outrora.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

FARTA!!!



Pra gente dar vida, precisa de morrer um pouco. É, foi desse modelo. Nasci com um sinal na testa, igual ao das matriarcas que não eram desejadas. Nasci sob o signo da infâmia. Era, sobretudo, pobre, muito pobre, dessas quando a tarde descansa, na hora da reunião ao redor da mesa, quando só tinha a tapera, a esteira, sem nenhuma cadeira, o tanto que daquele dia era possível de partilhar.

Do pouco que possuíam, como é que era costume dizer?, - a família que come unida, permanece unida. Só faltava o tabuleiro de quatro pernas, quiçá a comida.

Dessas pequenas porções, eles foram se fazendo. Se faziam do mingau de farinha, açúcar e água. Do angu, quando a terra seca, depois de tanto trabalho, deixava brotar o milho. Poderia ser uma história de São João e seus brotos, mas não era o caso. Esse era o conto de todos os dias, quando, apesar do minguado, estariam todos de buchos cheios.

O caso era de fome. Mas as fomes eram de tantos e tantas eram as fomes. Fome de ouvido, de letras, de feijão, de saber, só não fome de amor ou alegria. Mas a fome farta, ainda que a fome de um não sacie as outras. E você? Tem fome de quê?

Eu apenas sei que não sinto fome daquilo que nunca tive, tampouco do que vi em fotografia ou ouvi em versos. A ausência do sabor conhecido é impossível, porque é necessário a vivência.

Pois bem, foi assim que a abracei, quando minha aluna chegou me apertando os braços dizendo, - professora, tenho fome, - me abrace, - preciso de um pouco de sua energia, - já não como há dois dias. Eu a retive em meus braços e lhe dei minha memória, sabedora de que daquela pequena morte, mortificada ela, mortificada eu, pudemos, simplesmente, viver aquela experiência. Eu a acolhendo e lhe dando um lugar à minha mesa.

Estou farta, quisera ninguém se sentisse assim


sábado, 29 de abril de 2017

"Não sei dançar"


Já vai novamente? O que é dessa vez? Qual foi o estalo? E se tiver uma pessoa? Qual seria a matéria da escrita? – As questões eram tantas que sem as interrogações poderiam ser uma letra de uma música qualquer, dessas que ninguém ouviria ou tampouco cantaria. Iria para o limbo, feito de verde musgo, pantanoso, monstruoso, sem fala ou audição alguma. A solidão seria o malte. O malte seria a tontura. Da tontura viria o temor. E o temor é tão grave, grave como um tenor. Um tenor que cantaria sobre o cão, a rapadura amalgamada com o maracujá.

Assim ouviu e calada ficou. Ficou se fazendo dormir. Olhos abertos. Ouvidos zunindo e um som que vinha ao longe de uma voz feminina que disse eu não sei cantar tão devagar para acompanhar. Ou para te acompanhar. Do ouvido, lembrou da letra toda, quando na descida da serra, do lado dela, que já a acompanhava havia anos, cantando junto disse tudo, quando o estalo se fez dessa música. Ali ela soube que não poderia estar mais, ainda que tivesse pelejado uma multidão de meses depois. Vá. Termine seu conto. O conto se contado todo, poderíamos dizer, seria inacabado. Teria sido deixado em paz. Teria ficado nos recalques, nos silêncios, na vontade de não existência.

Não foi o caso, porque nunca é o caso. O caso é que ela fora violentada. Tinha dez e alguns poucos anos a mais quando ouvira a primeira das canções, no mesmo tempo em que ganhara de debute a vitrola de aniversário que hoje não saberia dizer em que lixeira eletrônica ela se amontoaria. Quisera dizer liquefazia, mas essas coisas das desnaturezas não se desmontam, são como pilhas que o ambiente, quando não tratado, regurgitam ad infinitum.

O autor de tanta violência era uma década a mais. Talvez uma década menos um ou menos dois, ainda assim uma década. E com esse autor, ela se obrigou a casar. Se obrigou pela culpa, pela vontade, pelos olhos fechados, pela blusa que ela tinha vestido por cima da pele nua, pelos muitos que essas indelicadezas se consolidam na vergonha, vergonha-verde-musgo.

Então ela poderia dizer que essa música era dela. Era dela porque ela a ouviu antes de ser escrita. A ouviu uma segunda vez, quando descia a serra e uma terceira, quando cantou, sem a melodia a fazer coro, para outra de sua vida.

A mesma escrita e já outra vida.  Talvez Len e Berni tenham razão. Somos todos monstros do pântano ou, no mínimo, habitamos ele, ela pensou enquanto caminhava estalando os galhos ainda não molhados pela garoa.


Ps. Para ler ou ouvir (com) Marina Lima. 


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Bolo de páscoa



Nos dias perturbados ela aprendera sobre o fluxo da consciência.

Não que tivesse sido uma escolha própria. Foi-lhe dado pelos percalços todos, quando se apercebeu que a mente é apenas um oitavo de uma coisa maior.

Que coisa maior, poderíamos perguntar a ela?

Ela não saberia dizer, provavelmente, talvez, sua mente, tamanho-de-baleia, coisa magra, feita de RAMOS, fosse uma sensação blue.

Não que adiante perscrutar a mente dela.

Porque o tamanho do mar ou da seca eram enormes demais para serem problematizados.

Apenas enormes e tão pequeninos, disse o outro.

O outro disse mais, disse que o som de jazz, na melodia blues, eram apenas coadjuvantes, quando elas cantavam numa oitava sempre superior ao que o próprio ouvido estava disposto a ouvir.

Ela era morena, sabida de samba, feita a sorrir, ainda que pouco afeita aos demais.

Quase não conseguia dizer que só queria a você, o prazer, carnaval, sem saber que a cada balada dada era uma esquina dobrada, quando os anos mais os anos se acumulam numa música de língua toda estrangeira.

Assim passavam os fluxos nada conscientes.

Até o dia que numa páscoa qualquer, dias depois, ganhou dos ovos que esperou, apenas a embalagem mais preciosa dela.

Nada além da embalagem.

Não tinha gosto de açúcar, tampouco de farinha. Era feito bolo, bolo de amêndoas.

E ainda dizem, disse ela, que sexo com camisinha é sem gosto. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

Meta


Era o que ouvia quando pequeno, sabido demais essiminino. E desse ouvido, cresci me fazendo pessoa menino. Era fazedor de barragens, o melhor dos pesqueiros de piaba, sabia fazer fogo dos fósforos apanhados, roubava o grude com os cacos de telha, carregava mais do que os crescidos os frutos das vazantes e me deleitava, cabeção d'água, na torrente que fabricaria mil voltagens, barreira abaixo, quando os açudes sangravam.

Essiminino virou uma primeira pele.
Uma segunda pele. Pele terceira.
Quarta e quinta, sexta feira,
dia de colheita, sábado já na feira
quando no domingo não lhe sobrava
carne nenhuma.
Era apenas pele, a pele dessiminino.

Tudo o que essiminino queria era fazer trinta. Trinta anos contados, não necessariamente comemorados, apenas a conta dos trinta. Nos trinta, pensava ele, ou eu, que agora narro, seria doutor de algum saber, fazedor de coisas sérias, teria meu violão, fita cassete, uma língua estrangeira, poucos amigos contados, um bocado vivenciado, gibis colecionados e um grande amor a ser narrado.

Afora a rima desejada, quando nos trinta chegado, essiminino, todo assoberbado, não soube o que fazer com o tempo aguardado, como se o ritmo do cordelado, ouvido paraibano treinado, ainda que no prosado, sem a rima cortejada, e o sacolão do passado guardado, fosse ele desacorrentado, dos sonhos que outrora tivera, quando as conversas de pingas eram sinceras, ele comigo, eu com ele, numa conversa de umbigo, e o riso, todo frouxo abundante, de esperanças e dentes brancos, pudessem tomar um malte gelado, sem frescura e proseado, sem que os trinta fosse trinta mais trinta, numa aritmética desenfreada, mesmo quando o ritmo do fraseado, não fosse ponto a ser marcado, coisa alguma, alguma coisa, num sentido bem arretado, só pra não se render ao arrebatado, numa linguagem que nem era nossa, fosse drama, prosa ou poesia, mas que o conto, esse contado, dissesse alguma coisa no cruzado, que valesse a pena o fraseado, se algum sentido desejasse ser apressado, porque da pressa dessiminino, do tempo escorrido todo, solta a meta desembestou.

Essiminino era meta, metafoto, metacoisa, metahistória, metaminino, metaconto, metaponto. Como se mete, meta esse menino.